Deuses celtas - Casais divinos e os sabas
".. Calipsos namoradas;Harpias que o manjar lhe contaminem;Descer às sombras nuas já passadas:Que, por muito e por muito que se afinemNestas fábulas vãs, tão bem sonhadas,A verdade que eu conto, nua e pura,Vence toda grandíloqua escritura!- Camões
Na parte 2 desta coluna chegamos a propor quais seriam as divindades originais, melhor seria dizer prototípicas, ‘representantes’ patentes de qualidade fundamentais, que nos apontassem um caráter original, por isso fundamental, de uma “religião” celta. Porém estas divindades não possuem grande riqueza mítica – à exceção de Ana – e, dado o mútuo pertencimento e implicação entre mito e rito, cabe a pergunta: quais seriam os outros deuses principais, aqueles que, no desdobramento do mito e no percurso do rito, dado o caráter heterogêneo deste “panteão”, foram cultuados por grupos específicos? Esta pergunta nos encaminha à busca das divindades cultuadas nos principais festivais religiosos celtas. Tentamos estabelecer um conjunto de casais divinos de acordo com os festivais celtas, pois estamos assim pisando em terreno relativamente sólido historicamente: sabemos que eles cultuavam casais divinos em seus festivais. Estaremos tratando principalmente do grupo de deuses irlandeses, por limitações, por abundância de fontes e por simplicidade – em especial aqueles que aparecem na literatura mítica irlandesa.As mais importantes celebrações eram Samhain e Beltane. Imbolc e Lugnasad surgem algum tempo depois. Samain (em irlandês antigo: sam, verão + fuin, fim) era o fim do verão e o começo do inverno no ano mítico, as trevas que precedem a escuridão para os gauleses: sem dúvida o mais importante festival, por isso, começaremos por este. É uma celebração encontrada em todos os povos celtas: Chamando Hollantide em Gales, Samhuinn na Escócia, Sauin na Ilha de Man, Allantide na Cornuália e Kala-Goañv na Bretanha francesa. O calendário de Coligny (séc. I) contém a festa de Samonios e ela foi alocada em 1o de novembro no calendário gregoriano. Sabemos pelos clássicos que os gauleses nesta data cultuavam Taranis, cujas vítimas eram queimadas em recipientes de madeira, e Teutatis, com sacrifícios enterrados em grandes vasos largos (mais parecidos com caldeirões). Há vários relatos de que Samain seria o principal festival dos celtas pagãos irlandeses, que a consideravam a melhor época para uma mulher engravidar. Nesta data, cultuavam a união do Dagda com Mórrígan e Boand – embora há possibilidades de Boand ser um aspecto de Mórrigan. Também ofereciam sacrifício ao já referido Crom Crúaich, mas não podemos, com base nos textos antigos, chamar esse deus de Samain, tal como fizeram alguns, tentando atribuir-lhe maior importância no contexto da data, cujo tema central é o encontro entre este e o outro mundo. O Dagda possuía uma enorme clava, dois porcos que se renovam e árvores sempre cheias de frutos: estes são atributos de fertilidade. Boand é uma deusa do rio Boyne, sendo portanto uma deusa local da natureza e sua relação com o Dagda é “adúltera”. Já Mórrígan é a “Grande Rainha”, a “Rainha dos Espíritos”. Não há outra divindade que melhor represente a majestade divina em Samain: o deus senhor do submundo tem suas núpcias com uma deusa terrivelmente mortal e ao mesmo tempo fértil e sensual. Essa deusa apresenta-se de forma tríplice nas faces de Badb, Macha e Nemain. Além de guerreira e líder feroz, é também uma amante sensual e uma sagaz feiticeira associada aos corvos (animais ligados à morte no simbolismo celta).
Outro rito igualmente importante era Beltaine. Também chamado de Cétshamain (‘oposto de Samain’) na Irlanda, Bealltuinn na Escócia, Cyntefin em Gales, Dydd Calan Mai na Cornuália e Cala´Mê na Bretanha francesa, esse rito marcava o fim da metade escura do ano. No calendário gregoriano sua data é fixada no 1o de Maio, considerada uma ótima data para se dar início a qualquer empreitada. Grandes fogueiras de purificação e cura eram acesas nesse dia em que sempre ocorrem fatos importantes na mitologia irlandesa, conforme o Lebor Gabála (Livro das Invasões), quando uma nova geração de seres surgia na Irlanda. Dançava-se em sentido horário em torno das fogueiras, carregando-se ramos de sorveira-brava, árvore que sempre figura como material de “mastros sagrados” no mito e no Folclore.Celebrava-se a força da vida, em todos os sentidos, cultuando-se, entre os gauleses, o deus Belenus (o brilhante), um deus com poderes de cura, consorte da deusa Danu (associada ao rio Danúbio) que é equiparado ao ancestral Beli Mawr em Gales. Este deus, no Mabinogion (coletânea de narrativas míticas galesas), é citado como o marido de Don, deusa-mãe por excelência, que seria equiparável à irlandesa Ana. O nome desta última, em irlandês, significa riqueza ou abundância, e parece condizer com a data de Beltane. Mas Ana é uma deusa, como toda boa divindade celta, extremamente ambígua, ela tem um lado sombrio e devorador que oferece juntamente com seus afetos. Se em Mórrígan a morte é latente e a vida patente, em Ana a vida é latente, mas é a morte se oculta. Beltane partilha desta ambigüidade.Além disso, seu nome a liga à deusa Áine, a rainha das fadas e regente do amor, do desejo e da fertilidade no folclore. O parceiro de Ana é Bile, um deus do submundo que é o pai de Dagda e ancestral mítico dos celtas irlandeses. Sendo Ana uma deusa telúrica, ela dava ao seu consorte o reino sobre a terra – de fato, Áine é conhecida pelos seus diversos parceiros mortais. Beli, em irlandês também designa uma árvore considerada morada de deuses, cujos ramos abrigavam a sagração de chefes e reis. Essa palavra também significa mastro, e o bastão real, símbolo fálico, era feito da madeira desta árvore específica.Ana é a mãe dos deuses Tuatha Dé Danann. Lembramos que os relatos míticos nos falam que é em Beltane que “chegam” novas raças à Irlanda e que esta terra também era conhecida como Terra de Ana. Ana certamente era a deusa que se encontrava no centro da cosmo-teogonia irlandesa, de modo que parece sólida sua relação com os ritos de fertilidade de Beltane: Dagda e Morrigan, por exemplo, são membros dos Tuatha Dé Danann, que significa “a tribo da deusa Ana”.Imbolc é uma festa de menor sobrevivência no folclore e cuja celebração é evidenciada numa área mais restrita às Ilhas Britânicas: talvez não seja possível (sem muita pesquisa ao menos) traçar paralelos entre deuses de outras nações celtas e aqueles celebrados nesta ocasião. Na Irlanda esta festa também é chamada de Lá ´il Bríde e na Escócia, Là Féill Bhr´de, sendo ambos os nomes indicadores de que a deusa Brigit era cultuada neste festival. Encontramos, na Ilha de Man e na Irlanda, o nome da versão cristianizada desta festa: Laa´l Moirrey Ny Gainle e Lá Fhéile Muire na gCoinneal, respectivamente. Estes nomes são alusões à celebração da Candelária. Outro nome irlandês para este festival é Óimelc, que faz referência ao período lactante das ovelhas, como sinal da chegada da primavera, quando os dias se tornam mais longos – fenômeno especialmente perceptível em climas temperados.Sabemos que Brigit era celebrada nesta data, mas quem seria, então, o deus do “casal” divino. Se atentarmos para a o sentido do ciclo mítico celta percebemos que, se Samain é um momento de vida-na-morte e Beltane, no outro extremo, marca a morte-na-vida, em Imbolc temos uma vida crescente, ainda frágil mas que atingirá a maturidade, tal como a primavera. O deus, neste momento, seria um “deus menino”. O fato de Brigit ser padroeira das parturientes parece reforçar esta idéia e além disso, a chama de Brigit não é uma fogueira de Beltane, tanto que está associada às velas (candelária). Os celtas certamente não usavam velas, mas as chamas que acendiam ritualisticamente em Imbolc deviam ser pequenas, pois estas têm a vantagem de poder crescer, em oposição às de Beltane.
Brigit estava relacionada não só ao fogo, ao parto e à amamentação, mas também era adorada por ferreiros e poetas, protegia o gado e os grãos. Ela é filha de Dagda, de modo que o nosso mitologema proposto até então tem mantido as coisas “em família”. Brigit era uma deusa protetora da província de Leinster, culturada no Monte Corleck no condado de Cavan, ou seja, originalmente era uma deusa local, provavelmente de muitas atribuições, que acabou por se tornar um pouco mais especializada. Seu parceiro era Bres, união a partir da qual surge Rúadan que morreu combatendo o deus Goibniu. Pela morte de seu filho Brigit canta a primeira elegia da Irlanda. O fato de o poeta Senchán Torpéist (autor do Táin Bó Cuailgne, a grande epopéia irlandesa cuja figura central é o herói Cúchulainn), de acordo com uma tradição posterior, ter sido o parceiro de Brigit é um indício de que os poetas tinham uma relação especial com esta deusa, que pode ser comparada à gaulesa Brigantia, também chamada Brigindo.Temos duas possibilidades de divindades masculinas em Imbolc, portanto: Bres e Rúadan. Penso que tal divindade se manifeste em ambos para manifestar temas diferentes. Dada a identidade entre pai e filho, freqüente na mitologia, teríamos em Rúadan o deus menino que morre no combate contra Goibniu. Este último é um deus ferreiro fundamental para o desenrolar do drama mítico, pois é ele que ajuda Lug a vencer pela última vez as forças inimigas, forjando-lhe a lança com que penetra o olho de Balor. Já Bres seria o deus menino vitorioso, que toma o lugar de Nuada na liderança dos Tuatha Dé Danann. Vemos aqui o tema frazeriano do rei incapacitado sendo substituído pelo rei jovem. Mas Bres abandona o reino e volta-se às origens paternas (é filho de um Formor, raça de inimigos dos Tuatha Dé Danann, tribo a que pertence sua mãe), passando a lutar no lado que será derrotado... é que o destino de todo rei é ser vencido, no drama mítico. Bres não é somente jovem, ele cresce tão rápido que aos setes anos de idade aparenta ter catorze. É um deus chamado de “o belo”, sendo beleza uma atribuição da juventude nos mitos. O deus menino da primavera, que cresce rápido e se torna viril e forte, sendo sempre belo e jovem, parece ser exatamente a divindade masculina de Imbolc. A figura de Bres parece se encaixar perfeitamente, apoiado pela sua relação com Brigit. A força e importância deste tema prolífico, atestado por Jessie Weston em From Ritual to Romance, deve certamente ser considerado no estabelecimento de um “esquema mítico”Chegamos então ao importante festival de Lugnasad. Este festival tem tantos nomes na tradição folclórica que nos limitaremos a citar uns poucos de cada lugar. Em irlandês antigo, o composto significa “assembléia ou festejo em honra a Lug”. Em escocês temos Lunasduinn, em manês Laa Luanys e na tradição folclórica é chamado de “missa do pão” ou “missa de São Miguel” (29 de Setembro na Escócia), certamente sob influência cristã. As tradições desta data permaneceram muito vivas se comparadas às das outras do ano mítico celta, certamente porque sofreram menores sanções da Igreja. Em Gales e na Cornuália, temos festas análogas, mas que não se pode dizer serem “as mesmas”, chamadas de Calan Awst (primeiro de Agosto) e Morvah, respectivamente. No calendário gregoriano esta festa se dá no primeiro domingo de Agosto ou no último domingo de Julho. É essencialmente um festival que se estende por muitos dias, celebrando a maturação dos grãos, o que explica a ampla variação geográfica das datas.Afigura central no festival é obviamente Lug, um dos deuses mais bem conhecidos da mitologia celta, que dispensa muitos comentários. Esse deus pode ser comparado ao gaulês Lugos, que era também celebrado no primeiro de Agosto. É possível que o galês Lleu Llaw Gyffes (luz da certeza, mão segura) seja um equivalente deste deus. O próprio deus Lug institui uma festa em honra à sua mãe adotiva Tailtiu no atual condado de Meath, a partir do qual a celebração se espalhou por toda a Irlanda. Parece ser novamente o deus tribal (sua “mãe” Tailtiu batiza a cidade de Teltown, sendo uma deusa local) omniregente que adota uma posição mais específica dentro de um ciclo mítico mais generalizado.Dentre os muitos feitos de Lug, destaca-se a morte de seu avô Balor, inimigo dos Tuatha Dé Danann, na segunda batalha de Mag Tuired (Cath Maige Tuired). Esse feito determina a vitória dos deuses. Mas quem será a consorte da uma figura tão imponente? Na tradição folclórica oral, a consorte deste deus é descrita na figura da Soberania. De acordo com um poema da Dindshenchas (compilação de tradição oral mítica e folclórica da Irlanda), Lug tinha quatro esposas: Buí (ligada à figura de Cailleach Bhéirre), Nás, Énglic e Echtach. Contudo, apenas o nome de Cailleach Bhéirre é significativo na mitologia e no folclore. Não temos melhores informações sobre Énglic e Echtach. Quanto a Buí, esta é uma deusa local ligada a um megálito no Condado de Meath, na Irlanda, enquanto Nás é ligada a um local de residência dos reis de Leinster na tradição folclórica. Seriam deusas locais que partilharam do mito de Lug. Resta então Cailleach Bhéirre. O seu nome significa “a anciã, feiticeira ou freira de Beare”, estando ligada à península de Beare, no sudoeste da Irlanda. Seu nome no folclore escocês é Caileach Bheur, na Ilha de Man ela é Cailagh ny Gueshag. É, portanto, uma divindade de maior importância nos mitos e no folclore de língua gaélica, uma figura de soberania de que Lug é parceiro no folclore. Ousaria dizer que Ceridwen é uma contraparte galesa desta deusa. Como soberania, ela aparece para o herói como uma anciã que anseia por amor. Ao ser aceita ela se transforma numa bela jovem... isso é simbólico do compromisso de um rei: para obter a soberania da terra (a jovem bela e fértil), deve primeiro abraçar a morte (a anciã da sabedoria), estar disposto a morrer pelo seu povo. Cailleach sobrevive a todos os seus consortes, que envelhecem e morrem, ou seja, ela sobrevive ao rei, sendo a verdadeira governante uma vez que confere a diversos consortes transitórios o direito de reinar. É uma deusa poderosíssima, portanto, a verdadeira rainha que afirma, no “Lamento da Anciã de Beare” - um poema monológico muito conhecido do estudioso da literatura celta – que “não é esposa do rei, mas do poeta”. Ora, como pode a soberania não ser esposa do rei? É que, como acabamos de afirmar, parece que seus consortes não são reis de fato, mas apenas o são na medida em que com ela se casam, tendo, conforme dito, como pressuposto aceitado a morte já implícita nessa figura poderosa e mortal. O fato de ser esposa do poeta liga esta deusa a Ceridwen, cujo caldeirão faz surgir Gwion renascido em Taliesin, o poeta galês. De fato, esta deusa, Cailleach, inspirou poetas do peso de um William Butler Yeats, que grafa seu nome como Cailleach Buillia. O destino de Lug, como consorte de Cailleach, dificilmente diferiria daquele reservado aos demais menos ilustres. Lug é morto pelos filhos de Cermait. Lug é aquele que se dá em sacrifício, vencendo uma última vez as forças antagônicas, mas morrendo posteriormente no combate. Ele é o rei que cumpre seu dever: ao aceitar Cailleach, ela lhe dá a soberania, mas ele precisa aceitar a morte... uma jornada que o levará até as trevas de Samain. Tal parece ser o tema de Lugnasad.Como conclusão... a proposta desde o início jamais foi liquidar a amplidão da mitologia numa simplificação pueril, mas acredito que a leitura dos mitos dos deuses aqui nomeados é um bom começo para os neopagãos ingressarem no mundo da mitologia celta; apenas um começo, e nada além disso. A relação estabelecida com os rituais celtas serve para tornar mais concreto o culto, trazendo à tona figuras vivas, com lendas, nomes específicos, imagens e forças dos casais divinos: o “Deus” e a “Deusa”. É claro que também podemos considera-los sob uma perspectiva politeísta como deuses completamente diferentes: o paganismo é para todos... “Quanto mais poético um poeta, mais livre, ou seja, mais aberto e preparado para acolher o inesperado é o seu dizer; com maior pureza ele entrega o que diz ao parecer daquele que o escuta com dedicação, e maior a distância que separa o seu dizer da simples proposição (...)” - Heidegger
Assim, finalmente, chegamos a um conjunto de casais divinos para cada festival: Dagda e Mórrígan em Samain, Bilé e Ana em Beltane, Brigit e Bres em Imbolc, Lug e Cailleach em Lugnasad. Não obstante, estes deuses são apenas uma pequena parte da imensa mitologia irlandesa, sendo uma parte ainda menor da mitologia celta de um modo geral. A proposição a que chegamos com estes textos jamais esgota a imensa possibilidade que o vigor dos mitos nos oferece... Continuamos pasmos diante do mistério das narrativas, do encanto das palavras das deusas, da força dos heróis, da música dos versos que nomeiam inúmeros deuses que nos convidam a um mergulho num outro modo de ser. O mito é como a música... nada mais pode dizer o que ele diz: que todos possamos sempre ouvi-los. “Imortais mortais, mortais imortais, vivendo a morte daqueles, morrendo a vida daqueles.” – Heráclito, fragmento 60.
Oisin.
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