Tradição das Fadas de vassouras

18 julho, 2006

Um Conto De SamHain
Lyla sentou-se no chão e olhou para o céu claro, limpo e estrelado. O reflexo da Lua cheia na água fez Lyla pensar numa pérola. Redonda e branca... Mas logo as crianças chegaram, e sentaram ao seu redor, interrompendo seus pensamentos. Sorrindo, Lyla olhou para cada uma deles.
'Comecemos? Vou contar para vocês a estória de como o Cornudo se sacrifica todos os anos para garantir força à Grande Mãe, para que esta possa vencer o frio do Inverno. Estão prontos?'
As crianças acalmaram-se para ouvir Lyla.
'Não foi há muito tempo que aconteceu. O Sol sumia no Oeste, e as aves noturnas já deixavam seus ninhos, umas ameaçando cantar. Debaixo das árvores, correndo para suas tocas, os pequenos animais apressavam-se, fugindo do frio cortante que se faria presente em pouco tempo. Aquela era a época do Cornudo, e só as criaturas mais fortes sobreviveriam a inverno tão rigoroso.
O Sol baixou, baixou, até que só se via uma fina linha de separação entre céu e Terra no horizonte, e tudo ficou avermelhado, com um ar mais mágico. E então, a luz se foi. A Lua estava crescente no céu, e um vento gelado começou a correr por entre os troncos seculares das árvores. Ouve-se, agora, o som de uma flauta...Som tão límpido e cristalino, que a superfície do lago, antes parada, tremulou ao som da melodia alegre.
Todos os animais da floresta pararam para ouvir o som da flauta, e mesmo as aves noturnas cessaram seu canto orgulhoso. E por entre as árvores, a flauta se fez ouvida em toda a floresta. E mais nada, além do som doce da flauta.
Atravessando o lago, um pouco depois do Grande Carvalho, estava a fonte de tal encantamento. Sentado numa pedra coberta de limo, balançando ao som da flauta de bambu, um ser robusto, com tronco e cabeça de homem, pernas cobertas de pêlo, cascos de cavalo e grandes chifres pontiagudos.
Observava a donzela que dançava ao som de sua música, logo à sua frente. Tinha longos cabelos claros, lisos, que escorriam até a altura da cintura. Os fios sedosos acompanhavam os movimentos da dança, pés habilidosos moviam-se descalços sobre a grama. A Deusa nunca havia estado tão bela quanto naquela noite.
Os dois brincavam nus, na noite fria da floresta, e alguns animais se juntavam ao redor da clareira. Cansada, a Donzela sentou-se, e olhando para o Cornudo, esperou que a música acabasse.
Quando o Deus afastou a flauta de seus lábios, as figuras dos animais e da Donzela desapareceram... Meras lembranças. A Deusa agora se recolhia grávida no Mundo Subterrâneo, guardada por seus familiares, pronta para dar à luz dentro de tão pouco tempo.
Era necessário que o Sol Novo nascesse. O Cornudo levantou-se com tristeza e caminhou até o lago, para observar seu reflexo. Já estava velho e fraco, mas ainda continha grande energia... Energia necessária para que a Deusa agüentasse o parto que se seguiria em menos de dois meses. Já não podia continuar a viver... A Terra precisava de seu sangue, e o Sol Novo de sua energia.
Um grito ecoou em sua mente: a Deusa sofria. Aquele era o momento certo. O Cornudo olhou para os céus, e olhando para a mata, despediu-se de sua casa. Tambores rufaram quando Ele ergueu suas mãos e pronunciou as palavras secretas. Houve uma explosão, e Ele desapareceu.
Aqui, numa clareira nas montanhas, já distante da floresta, ouviam-se os tambores de guerra. Uma música rápida e repetitiva tornava o ar agressivo. Também com uma explosão, o cornudo surge no centro do círculo, um olhar decidido em seu rosto.
O Velho Cornudo tinha agora em suas mãos uma adaga ritual, e quando Ele a levantou apontada para seu peito os tambores cessaram. Cernunnos fechou os olhos, e o momento se fez silencioso... Aqueles segundos duraram milênios... O Cornudo levou a adaga a seu peito, e os tambores voltaram a tocar.
Quando a lâmina fria rasgou a carne do Deus, não houve um grito, sequer um sussurro de dor... Apenas o som do sangue derramando-se sobre a terra. O Cornudo ajoelhou-se, com calma em seu olhar. Com as próprias mãos, abriu a ferida para que os espíritos recolhessem o sangue.
Quando o círculo tornou-se silencioso novamente, e todos os espíritos partiram, o Deus deitou e virou-se para as estrelas, e esperou que a paz voltasse a reinar sobre a floresta. Ainda sentia o sangue escorrendo para fora de seu corpo, e regando o círculo sagrado em que repousaria para sempre.
E do solo, ou talvez de lugares além das estrelas mais distantes, elevou-se um cântico, murmurado e pausado... Talvez fossem as pequenas criaturas do subsolo, ou ainda as estrelas, despedindo-se de seu Deus.
"Hoof and Horn, Hoof and HornAll that Dies Shall be Reborn.Corn and Grain, Corn and GrainAll that Falls Shall Rise Again."
Cornudo morreu sorrindo, sabendo ser a semente de seu próprio renascimento. E Ele pode sentir sua energia retornando ao útero da Grande Mãe, que agora deixava de sofrer...
Os espíritos, então, romperam a barreira entre os dois mundos, e caminharam por sobre a Terra, espalhando o sangue e a força do Deus, para que pudéssemos sobreviver através dos tempos difíceis que se aproximavam.'
Lyla limpou uma lágrima que escorria de seu rosto. As crianças ainda ouviam atentas.
'É por isso que os espíritos vêm ao nosso mundo nessa noite tão escura... Eles trazem consigo um pouco do sangue do Deus Cornudo, que só renascerá no Solstício de Inverno. Trazem conselhos, proteção e promessas de que nos irão guiar durante todo o período escuro do ano. Devemos, portanto, saudar os espíritos, porque, sem eles, a semente do renascimento não seria espalhada.
Agora vão para a Casa Grande, vamos começar o ritual.'
Lyla deixou que as crianças corressem na frente em direção à Casa Grande. Parou no meio do caminho, e deixou que seus ouvidos escutassem os sons do além. E de algum lugar chegou aos ouvidos de Lyla um cântico... 'Hoof and Horn, Hoof and Horn...'
E Lyla caminhou para a Casa Grande.









































Um Conto De Inverno

Os dias iam ficando menos frios, e Lyla podia sentir isso em seu corpo. Suas mãos já não estavam tão doloridas, e já caminhava com mais facilidade. Mas mesmo com todas as dificuldades que o inverno representava Lyla gostava da estação. Mesmo os rituais se tornavam mais poderosos sob os ventos gelados do Norte.
Hoje, as crianças estariam reunidas ao redor da lareira da Casa Grande. Lyla tomou o último gole de seu chá e apressou-se para a sala, onde as crianças a esperavam ansiosamente.
'E então, meus amores, finalmente chegamos ao Solstício de Inverno, Yule.'
'Lyla, porque não comemoramos o Natal?' Era a filha de Jennifer que perguntava. Lyla já esperava por essa pergunta.
'Na verdade, queridos, o Natal é só um jeito diferente que os Cristãos têm de comemorar o Solstício. Lembra-se do significado desta data? É quando o Deus Sol renasce da Grande Mãe, aquele que vem para nos trazer luz. Assim como nós, os Cristãos estão comemorando o nascimento do menino-deus, só que numa data um pouco diferente.'
'Mesmo a árvore de natal deles foi inspirada em nossas celebrações', continuou Lyla, indo um pouco mais longe do que pretendia.
'Como assim?' Todos se perguntavam.
'Já repararam que toda a Casa Grande está enfeitada com ramos de árvores, hoje? São ramos de árvores como os pinheiros, por exemplo, que têm suas folhas verdes durante todo o ano, e que por isso simboliza o renascimento, a idéia de que nada acaba completamente. No Solstício, decoramos a casa com ramos, e até árvores inteiras, e penduramos sinos em seus galhos para saber quando os espíritos das árvores estão passeando pela casa. Mas comecemos logo a história de Yule.'
'A Grande Mãe já agonizava em seu quarto, rodeada de animais e espíritos amigos. O suor banhava todo o seu corpo, e a enorme barriga contraia-se violentamente.
Da floresta, pequenos pássaros traziam ramos de pinheiros para montar o berço da criança, enquanto espíritos aliviavam a dor da Deusa com ungüentos mágicos e secretos.
Já em idade avançada, a Grande Mãe não poupava energias ao tentar parir a criança com urgência, desprezando a dor e as dificuldades. E lá pela alta madrugada, o quarto foi se enchendo de luz... O Sol raiava do lado de fora.
Apressado, o esquilo desceu as escadas para o subsolo, onde ficava a entrada para o quarto da Deusa. 'O Sol está nascendo, o Sol está nascendo!' Gritava, afoito. E no interior do quarto... Ouviu-se o choro da criança recém nascida.
Com a própria boca, a Deusa cortou o cordão umbilical, para abraçar seu filho, com um sorriso no rosto. O quarto encheu-se de alegria, e o Sol raiou por inteiro do lado de fora.
O bebê era robusto e forte. 'Há de ser mais um guerreiro' diziam todos. Emocionada, a Deusa pôs a criança no pequeno berço de folhas, e deixou que todos a vissem. 'Vamos, abram a porta. Quero que os céus o conheçam.'
E quando a criança surgiu do lado de fora da árvore, as nuvens desobstruíram o Sol. E como um sinal, pingaram de algumas árvores algumas gotas de neve... O inverno chegaria mais uma vez ao fim...'
'Bem, criança, essa foi a nossa estória de hoje. Agora se apressem para cima, a Lenha de Yule já vai ser queimada!'
Quando as crianças subiram as escadas e Lyla ficou sozinha, ela olhou para o fogo que tremulava na lareira.
'All that Dies Shall Be Reborn...'



Um Conto De Imbolc
Lyla andava calmamente sobre a neve do pomar. Caminhava pensativa, enquanto observava os cristais pendendo dos galhos das árvores, derretendo aos poucos, deixando o chão lamacento e gelado. Apertou o agasalho ao seu redor quando o vento frio que corria pelas árvores a alcançou. Tremeu, e lembrou-se das crianças, que a estavam esperando na sala de Casa Grande. Apressou-se pela estradinha, e surpreendeu-se quando entrou na casa e encontrou a sala vazia.
Aproveitou o momento de sossego e foi à cozinha tomar um chá. Mas enquanto enchia sua xícara, foi interrompida pelo barulho das crianças, que entravam pela porta naquele instante, correndo e gritando, todas sujas de lama. Atrás delas, Howe, o marido de Jennifer, vinha rindo-se: "Vamos, pequenos, todos para cima, vamos tomar um banho e tirar essa lama de vocês!". Quando passou pela cozinha, Howe olhou alegremente para Lyla, e subiu as escadas de dois em dois degraus. Lyla gargalhou. Todo ano era a mesma coisa: as crianças voltavam do pomar todas sujas, depois de rolar a manhã inteira sobre a terra. Tomou o chá com calma, já que o banho sempre demorava.
Quando as crianças voltaram, Lyla já estava sentada na sala, esperando por elas no sofá. Elas se espalharam pelo tapete, em frente à lareira e silenciaram-se, compenetradas para ouvir a história do dia.
'Bem, vejo que já visitaram o pomar, hoje!' Todos riram.
'É exatamente sobre Imbolg que vou lhes contar, agora. O Deus Sol já havia crescido um pouco, e era agora um jovenzinho. A Grande Mãe ainda estava deitada, adormecida em seu leito para que se recuperasse do parto cansativo de seu filho.
O Deus andava pelas matas próximas, nunca se distanciando de casa, com medo do frio e da escuridão. Mas a Mãe não acordava, e isso o deixava preocupado. Resolveu sair à floresta e descobrir o que A mantinha adormecida. Levou consigo um pouco d'água, uma lança, e seu fiel companheiro, o Cervo.
Caminharam até o Grande Carvalho, ponto onde a escuridão tornava-se densas, e de onde o deus nunca havia passado. Enchendo seu peito de coragem, acenou para o Cervo. Eles passaram o Grande Carvalho, e adentraram a assustadora escuridão da mata.
Sons desconhecidos vinham a seus ouvidos, e ventos congelantes atravessavam suas espinhas. Mas mesmo assim caminharam. Até que chegaram a uma clareira, de onde vinha uma luz intensa. Aquilo era estranho, pensaram os dois, e resolveram dar uma olhada de perto.
Quando olharam para dentro da clareira, perceberam que havia ali uma fogueira enorme. Eles sabiam que deviam levar um pouco do fogo à Grande Mãe, mas viram também que vários espíritos guardavam o centro do círculo.
Pensaram em atacar de surpresa, e pegar com as próprias mãos o fogo que iria salvar a Deusa. Mas sabiam que os espíritos eram mais fortes, e que o fogo queimaria suas mãos. Pensaram, depois, em enganar os espíritos, mas sabiam que não eram astuto o bastante. Resolveram, então, contar a eles a razão de estarem ali.
Entraram na clareira com bravura, e caminharam até o espírito de maior porte, enquanto os outros os observavam. Disseram ao espírito que a Mãe estava adormecida, e que precisariam de um pouco de fogo para aquecê-la.
'Jovem guerreiro, não é de ti, nem de ninguém, que guardamos o fogo. Apenas cuidamos para que ele nunca se apague, mesmo durante os invernos mais rigorosos. Tens nossa permissão para levar o fogo, e fazer dele bom uso.'
O jovem Deus, então, pegou uma tora de madeira e a acendeu com facilidade na fogueira. Agradeceu aos espíritos, e voltou com o Cervo até a árvore onde a Deusa dormia. Quando desceu os primeiros degraus, a Deusa abriu seus olhos, vagarosamente, e olhou ao seu redor.
Viu o filho com a tocha na mão, e sentiu o calor do fogo. Sabia que em pouco tempo viria à superfície. Já estava descansada, e esperaria apenas que a neve recuasse mais um pouco para que finalmente saísse em alegria e cor para fora de seu quarto’.
'E assim termina nossa história, crianças. Todos os anos o deus sai em sua jornada, e descobre que deve levar o fogo à sua mãe para acordá-la. É aí que a mãe desperta, vagarosamente, e então o jovem deus se torna aos poucos um guerreiro, e vem à superfície pela primeira vez como o senhor Sol. As velas que acendemos em cada janela mostram ao jovem guerreiro o caminho de volta a terra e o encorajam a retornar. Podem ir, agora.'
Lyla deixou que corressem para a copa, onde uma mesa farta as esperava para o almoço. Levantou-se e foi beber mais uma xícara de chá.



Um Conto De Beltane

Lyla respirou profundamente, deixando o ar adocicado da Primavera no pomar encher seus pulmões. Com os braços abertos, girou em torno de si mesma, e dançou, segurando a barra do longo vestido, por entre as árvores. Tropeçou, e, equilibrando-se, ajeitou a coroa de flores na cabeça, rindo de si mesma.
Como Beltane a agradava! Os dias agora seriam mais longos e claros, cada vez mais quentes. Toda a Natureza explodia em cores e alegria, preparando-se para o casamento dos deuses. Mal podia esperar pelas fogueiras se acendendo nos campos abertos. Infelizmente, fora incumbido de outras tarefas, este ano, e não teria tempo para ajudar nos preparativos.
Mas não reclamava: a iniciação exigia tal obediência, e a companhia das crianças não a desagradava, de qualquer maneira. Chegou à Casa Grande ofegante e sorridente. As janelas estavam abertas, o Sol de fim de tarde banhando o chão e as paredes da sala. Pessoas e mais pessoas passavam de um lado para o outro, todas alegres, carregando enfeites, arranjos, panos, ferramentas, velas, gravetos, ramos e flores. Por toda a casa, ouvia-se a ruidosa alegria dos presentes. Há quanto tempo Lyla não via o Bosque tão cheio!
Foi à cozinha e bebeu um copo bem gelado de água... Água de fonte, pura e fresca...
Correu para fora, e foi procurar as crianças, que naquele momento deviam estar na cachoeira se banhando. Desceu pelo caminho de pedras, que cortava a parte mais fechada do bosque sagrado. A descida íngreme era perigosa, pois as pedras estavam sempre cobertas de limo, e escorregadias, e terminava direto na pequena lagoa que recebia as águas da também pequena cachoeira.
A piscina natural que se formava ficava toda coberta pelas altas árvores, mas as crianças não pareciam se importar com a baixa temperatura da água. Brincavam, jogando água umas nas outras, fazendo um enorme barulho; Howe também estava na brincadeira, como se fosse mais novo que as próprias crianças! Lyla riu. Jennifer e Christine cantavam às margens da lagoa, enquanto o companheiro de Christine, Seachild, meditava na margem oposta. Lá, a subida era quase que perpendicular às águas da lagoa, e as árvores mais altas e velhas.
Lyla sentou-se ao lado de Jennifer, e entrou na música. Ficaram todos ali, aproveitando o melhor da Primavera, até que Jennifer, Howe, Christine e Seachild tiveram que se retirar para ajudar os outros a levantarem os postes nos campos abertos. Lyla, então, pode ficar a sós com as crianças, que já estavam enxutas a vestidas. Resolveu que a cachoeira seria o local ideal para a história do dia.
Sentaram-se em roda. Agora que já se divertiram na água, deixem que lhes diga o que é esse dia maravilhoso, a que chamamos Beltane. Hoje é um dia como nenhum outro, é o dia do casamento do Deus e da Deusa.'
'O Deus já havia crescido e se tornado um adulto forte e robusto. Ele e a Deusa já não eram mais mãe e filho, mas sim amantes. E hoje, seu casamento se faria. Todos os animais da floresta se reuniam ao redor da Deusa.
As aranhas serenamente teciam um belo vestido branco para a Deusa; tão fino e tão leve quanto suas próprias teias. Os pássaros, que cantavam mais alegremente, traziam flores das mais variadas colorações para enfeitar a cabeça da Donzela. Enquanto isso, os esquilos providenciavam a comida, e os castores arrumavam o altar. A festa seria linda, toda iluminada com a luz dos vaga-lumes.
A Deusa cantava alegre, ávida por rever seu amante no casamento.
Enquanto isso, o Deus também se preparava, num canto bem mais afastado da floresta, cercado por carvalhos e acompanhado de seu leal amigo Cervo. Dançava agora com espíritos de toda sorte, numa dança ritual que o prepararia para a vida conjugal. Tambores rufavam, e todas as árvores entoavam o cântico secreto.
O Cervo observava de longe, com o mesmo olhar calmo que sempre mantinha, enquanto o Deus girava, girava, e girava. O ritmo da música aumentou gradualmente, para terminar de forma abrupta com uma batida uníssona de todos os tambores.
O Cervo entrou no círculo, sinalizando que a hora havia chegado. No horizonte, o Sol se punha, e Lua Crescente já era vista nos céus.
Deus e Deusa se encontraram, então, no entardecer mágico. A cerimônia foi realizada frente a todos os animais e espíritos da floresta, e quando o casamento acabou, o casal retirou-se da festa para, ainda com as mãos enlaçadas, amarem-se ao pé das fogueiras.'
'E assim, crianças, Terra e Sol voltam a harmonizar-se mais uma vez, e os dias voltam a ser claros e quentes.'
Todos, menos Lyla, levantaram-se e subiram correndo para a Casa Grande. Lyla despiu-se e entrou embaixo da cachoeira. Deixou que a água corresse por todo seu corpo, e deleitou-se do frescor das sombras das árvores. Sem que ela percebesse, Nightowl entrou na lagoa.

























Um Conto De LUGHNASSADH

Lyla sentou-se embaixo do grande carvalho no centro do pomar, enquanto as crianças chegavam e acalmavam-se. O verão ia alto, e nas fazendas vizinhas as colheitas já se haviam iniciado. Não como eram nos tempos antigos, e sem a mesma importância religiosa para os camponeses, mas ainda na mesma data.
Assim que todos se acomodaram, Layla começou a história do dia.
'Do topo da colina, bem próximo à escarpa, o Cornudo observava os campos. O Sol se punha no Oeste, e o vento Norte já soprava. Um veado se aproximou e parou ao lado do deus, como que o acompanhando na contemplação, silencioso.
"Vê como os campos estão todos verdes e cheios de vida? Amanhã é o dia da primeira colheita”. disse o deus ao veado.
O Cornudo pegou sua flauta e a levou à boca. A melodia era lenta, quase melancólica, mais como um acalanto, e logo se espalhou pelo vale lá em baixo. Outros animais se aproximaram e sentaram-se ao pé do deus para ouvi-lo tocar.
A última nota se estendeu até que o fôlego do Cornudo se acabasse, e, nesse exato momento, o Sol desapareceu sob a linha do horizonte. Olhando para os campos pela última vez, o deus se virou.
"Vamos, meus amigos. É hora de me preparar para ser recebido amanhã”.E todos desceram a colina.
Durante toda a noite haveria preparação para o ritual do dia seguinte, e era muito importante que tudo estivesse pronto na hora certa. Na vila, também os camponeses passariam a noite em preparação, descansando para o início das colheitas no dia seguinte.
E já próximo do amanhecer, homens e mulheres se concentraram nos campos e olharam para o Leste. Quando a primeira luz brilhou no horizonte, a sacerdotisa deu um passo à frente de todos e levantou os braços.
"Salve, grande deus sol. Estivemos esperando por tua presença até agora. Sê bem-vindo mais uma vez”.
O grande astro surgiu, erguendo-se com calma por detrás da terra. O sacerdote pôs-se ao lado da sacerdotisa.
"Salve, grande deus sol. Mais uma vez, dou-lhe as boas vindas. Nós lhe prestamos reverência neste dia em que os campos estão verdes e prontos para serem ceifados. Nós lhe agradecemos e adoramos, pois é também a ti que ceifaremos”.
Devagar, a luz do Sol bateu nos rostos de cada um ali presente, e muitos sorriram, sabendo que o Sol havia consentido. Sacerdote e sacerdotisa disseram, juntos "Que assim seja", e caminharam até a plantação, onde a sacerdotisa, com a foice dourada fez o primeiro corte.
E todos os outros camponeses empunharam suas próprias foices, e a primeira colheita havia começado.
O sol continuou a subir, e logo se pôs. E durante dias e dias continuaria a observar os campos desaparecendo, até que também sua força desaparecesse. E esse é o curso natural das coisas...
E assim seria.'
As crianças ouviam atentas.
'Essa é a história de como o deus sol cede suas forças para que os campos cresçam, e de como sua força diminua à medida que as plantações são ceifadas. Ao fim das colheitas, tudo está estocado, e então o ano escurece e os povos do campo se recolhem.
Muitos de nossos irmãos bruxos chamam esta data de Lammas, e outros, ainda, de Lughnassadh. É o primeiro festival da colheita, sendo Mabon e Samhain os outros dois. Lugh, o deus do sol celta, envelhece justamente nessa época, e é honrado com oferendas, altares e festas.
A nosso modo, também honraremos o sol, assando pães e enfeitando nossos altares. Vamos agora à Casa Grande, estão todos nos esperando para o almoço.'
Como de costume, as crianças correram na frente, e Layla ficou para trás, sentada sob a copa do carvalho por mais algum tempo.
























































Um Conto De Outono

À medida que as folhas das árvores do Bosque Sagrado mudavam sua coloração, os dias cada vez mais se mostravam menores que as noites.
Lyla desceu as escadas da Casa Grande e encontrou as crianças na sala, brincando no tapete em frente à lareira.
Pintavam cones de pinheiro para enfeitar os altares, e correram para mostrar seu trabalho a Lyla. Era bom vê-las tão empolgada com a decoração do Equinócio!
'Bom, crianças, receio que terão de terminar mais tarde, pois gostaria de lhes falar sobre Mabon antes do jantar. Não há problema com isso, há?'
Estando tudo bem para as crianças, Lyla sentou-se no sofá e deixou que se espalhassem no tapete à sua frente para que ouvissem a história. Dessa vez alguns adultos também vieram ouvi-la.
'A história que vão ouvir hoje era contada pelos povos galeses, já não vivem entre nós. Trata-se da história de Mabon Moderno, o filho de luz.
Mabon sempre fora um garoto livre, e gostava muito de correr pelos campos e florestas. Era um deus jovem, e irradiava uma luza muito bonita.
Certa vez, no dia do Equinócio de Outono, Mabon desapareceu enquanto brincava nos campos d trigo. Sua mãe, Modron, guardiã do além, protetora e curandeira, a própria Terra, chorou com grande tristeza.
E as árvores perderam as folhas, e depois os dias tornaram-se escuros e frios. E tudo foi tristeza. Com medo de que essa época tão escura nunca terminasse, Mabon foi procurado pelos quatro cantos, por todos os guerreiros da terra. E com a ajuda dos animais vivos mais antigos, dentre eles o corvo, a coruja, a águia e o salmão, Mabon foi encontrado, já livre de onde estivera todo o tempo.
O que ninguém sabia é que Mabon havia estado no além mágico de Modron, o útero da Terra, um lugar de encantamento e desafios, onde o jovem garoto pudera se tornar um guerreiro de verdade, e depois renascer como o filho de luz.
A luz de Mabon havia sido tragada pela Terra apenas para ganhar força entornar-se uma nova semente...
E era assim os gauleses explicavam a chegada do Outono, e os Gregos o faziam de forma bem semelhante, através do mito de Perséfone.'
Nightowl se levantou e disse às crianças 'O Outono é o tempo que temos para reunir forças para o inverno, crianças, enquanto as colheitas seguem e metade dos campos já desapareceu. É época de nos fecharmos em meditação, e olharmos para dentro de nós mesmos, e também da Grande Mãe, que está por envelhecer e se tornar a Anciã.'
Lyla apressou as crianças 'Vamos, por hoje já chega, vamos jantar e depois voltar à pintura dos cones'.
Todos se levantaram e foram jantar.






O Rei Carvalho E O Rei Azevinho

Quem, nesse mundo, nunca os viu como reis? De todas as árvores da floresta, é o azevinho que usa a coroa, já diziam, e sabiamente. Pois bem, ao seu lado, reina o carvalho.
É o último que governa enquanto o Sol vai alto no ano. Seus ramos altos e copa larga deixam bem claro o porquê. É o rei do dia, do calor, da força e da fertilidade.
Enquanto reina, é sob sua sombra que nos protegemos do Sol quente, e sob sua copa dançamos e bebemos o vinho. Então, é nosso rei.
Já o azevinho vem em outras épocas. Quando mesmo os dias são escuros e as outras árvores perdem as folhas, é então que ele reina, com suas frutas vermelhas bem expostas para provar que continua vivo, e toma conta da floresta enquanto a vida repousa.
O reinado do azevinho não nos presenteia com luz e calor, mas dentro de nossas casas temos, então, tempo para refletir, ensinar e aprender.
O Rei Carvalho e o Rei Azevinho são irmãos, os dois lados da mesma moeda, a metade crescente e a metade minguante do ano, respectivamente, e se enfrentam duas vezes a cada volta da Roda. Ao fim das batalhas, um deles é destronado e o outro assume.
Uma delas acontece no solstício de inverno (Yule), durante o reinado do Rei Azevinho. Todo ano o Rei Carvalho renasce nessa data, e vem então reclamar por seu trono. Os dois irmãos lutam, e o mais forte vence, mais jovem, recém-chegado.
O Rei Carvalho assume o trono e lá permanece até o solstício de verão (Midsummer), quando sabe que seu irmão voltará, e dessa vez será o Rei Azevinho o mais forte.
Assim tem sido desde quando nossa memória pode alcançar, e assim será ainda por algum tempo...